Autores: K.R. Denninghoff, T.C. Casper, J.J. Zorc, R.M. Ruddy, S. Satola, W.-J. Wendt, C.R. Morris, M.M. Tavarez, M.J. Lipshaw, M.Y. Kwok, J.-A.O. Nesiama, K.A. Nelson, M. Webb e F.D. Martinez, pelo PECARN AZ-SWED Trial Study Group
FONTE: New England Journal of Medicine, 2026 (publicado em 18 de maio de 2026). DOI: 10.1056/NEJMoa2516505.
OBJETIVO: Avaliar se um curso de 5 dias de azitromicina reduz a gravidade dos sintomas em crianças pré-escolares atendidas em departamento de emergência (DE) com episódio moderado a grave de sibilância, com análise separada segundo a presença ou ausência de colonização nasofaríngea por bactérias potencialmente patogênicas (Streptococcus pneumoniae, Moraxella catarrhalis e Haemophilus influenzae).
MÉTODOS: Ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, multicêntrico, conduzido em 8 departamentos de emergência pediátricos nos Estados Unidos, vinculados à Pediatric Emergency Care Applied Research Network (PECARN). Foram incluídas crianças de 18 a 59 meses de idade com escore PRAM (Pediatric Respiratory Assessment Measure) igual ou superior a 4, indicando sibilância moderada a grave. Os participantes foram randomizados para receber azitromicina (12 mg/kg de peso corporal, uma vez ao dia) ou placebo, por 5 dias. Amostras nasofaríngeas foram coletadas antes da primeira dose para pesquisa das três bactérias patogênicas de interesse, classificando os pacientes em coorte positiva (ao menos uma bactéria detectada) ou coorte negativa, com análises de eficácia conduzidas separadamente para cada coorte. O desfecho primário foi a soma dos escores do Asthma Flare-up Diary for Young Children (ADYC) ao longo dos 5 dias após a randomização, com valores possíveis entre 5 e 35 (quanto maior, mais grave o quadro). Os desfechos secundários pré-especificados foram o tempo de permanência no DE, o tempo de internação hospitalar e as visitas de retorno (DE ou readmissão hospitalar) em até 72 horas. O clearance bacteriano e o desenvolvimento de resistência antimicrobiana foram avaliados em visitas de seguimento entre 1 e 3 semanas após a randomização.
RESULTADOS: Entre os 840 pacientes randomizados, 521 (62,0%) foram classificados na coorte positiva para pelo menos uma das três bactérias pesquisadas. Os escores de ADYC não diferiram significativamente entre os grupos azitromicina e placebo, tanto na coorte positiva (mediana de 9,59 vs. 9,72; P=0,70) quanto na coorte negativa (mediana de 9,30 vs. 9,10; P=0,69). Na coorte positiva, o clearance bacteriano nasofaríngeo foi de 58,7% no grupo azitromicina, contra 11,4% no grupo placebo, porém sem correspondência com benefício clínico adicional. Os desfechos secundários (tempo de permanência no DE, tempo de internação e taxa de retorno em 72 horas) foram semelhantes entre os grupos em ambas as coortes, assim como a incidência de eventos adversos e o desenvolvimento de resistência bacteriana no seguimento. O estudo foi interrompido antecipadamente por futilidade (quando determinada intervenção não traz benefício real), por recomendação do comitê de monitorização de segurança, após análise interina planejada.
CONCLUSÃO: Em crianças pré-escolares atendidas em departamento de emergência com episódio moderado a grave de sibilância, a azitromicina não proporcionou redução adicional da gravidade dos sintomas em comparação ao placebo, independentemente da presença de colonização nasofaríngea por bactérias potencialmente patogênicas, apesar de ter promovido “clearance” bacteriano expressivamente maior. Esses achados contrastam com resultados favoráveis descritos em estudos ambulatoriais prévios (Bacharier et al. e Stokholm et al.), sugerindo que o eventual benefício anti-inflamatório da azitromicina possa depender da administração precoce, antes do estabelecimento de obstrução importante das vias aéreas inferiores. Os dados não sustentam o uso rotineiro de azitromicina em crianças pré-escolares com sibilância já instalada no contexto de emergência.
COMENTÁRIO: Mais um estudo que mostra a inutilidade de se usar ATBs na emergência para tratar sibilância ou outros sintomas induzidos por vírus como catarro amarelo-esverdeado e tosse. AZT não é diferente. O uso de macrolídeo está tão disseminado que, segundo os dados do SIREVA, 50% ou mais dos pneumococos já estão resistentes a ele dificultando o tratamento de pneumonias, otites e sinusites. O mesmo roteiro deve acontecer com AMX + CLAV, a “água benta” do momento.

