Revisitando o papel da fórmula de soja em lactentes com APLV IgE mediada

AUTORES: Elissa M. Abrams, Scott H. Sicherer, Kirsten Beyer, Robert J. Boyle, Motohiro Ebisawa, Matthew Greenhawt, Marion E. Groetch, Gideon Lack, and Yitzhak Katz.

FONTE: J Allergy Clin Immunol Pract Out. 2025;13:2619-25

OBJETIVO: Revisar criticamente o papel da fórmula à base de soja no manejo de lactentes com APLV mediada por IgE, avaliando evidências sobre coalergia leite–soja, segurança, adequação nutricional, custo e recomendações atuais de diretrizes clínicas.

MÉTODOS: O artigo é uma revisão de literatura, com análise crítica de estudos observacionais, ensaios clínicos, coortes prospectivas, revisões sistemáticas, documentos de consenso e diretrizes internacionais. Foram avaliados dados históricos e contemporâneos sobre prevalência de alergia à soja em crianças com APLV, segurança a curto e longo prazo do uso de fórmulas à base de soja, impacto nutricional, crescimento e desenvolvimento, além de aspectos econômicos e de palatabilidade. Também foram examinadas recomendações de sociedades científicas e potenciais vieses relacionados à formulação de diretrizes.

RESULTADOS: Evidências mais recentes demonstram que a coalergia entre APLV mediada por IgE e alergia à soja é rara ou inexistente, contrastando com estudos mais antigos. Não há base biológica para reatividade cruzada significativa entre proteínas do leite de vaca e da soja.  Apesar da presença de fitoestrógenos, estudos clínicos e de seguimento longitudinal não identificaram efeitos adversos clinicamente relevantes do leite de soja sobre crescimento, desenvolvimento neurocognitivo, função endócrina, reprodutiva ou imunológica. As fórmulas à base de soja atualmente disponíveis são nutricionalmente adequadas para lactentes a termo saudáveis e apresentam menor custo e, potencialmente, melhor palatabilidade em comparação com fórmulas extensamente hidrolisadas ou à base de aminoácidos.

CONCLUSÃO: Embora as fórmulas extensamente hidrolisadas sejam amplamente utilizadas no tratamento da APLV, as fórmulas à base de soja são uma alternativa segura, eficaz e custo-efetiva para lactentes a termo com APLV mediada por IgE, desde que o diagnóstico seja corretamente estabelecido. As preocupações com fitoestrogênios permanecem predominantemente teóricas e não sustentadas por evidências clínicas robustas. A reavaliação do papel da soja nas diretrizes clínicas pode ampliar as opções terapêuticas para as famílias, especialmente diante do crescente impacto econômico das fórmulas extensamente hidrolisadas e a base de aminoácidos.

COMENTÁRIOS: Há muito tempo debatemos em nossas reuniões como a soja, nas últimas décadas, foi denegrida como fonte alimentar, principalmente para lactentes, sem evidências robustas, e o papel da indústria alimentícia neste assunto. Portanto ficamos muito felizes com publicação deste artigo de revisão chancelado pela Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia, a “nave mãe” da alergia mundial, cujo autores estão entre os mais respeitados do mundo no que se refere a alergia alimentar.  Além do exposto acima os autores mostram evidências de que 97 a 100% do fitoestrógeno contido na soja, o grande vilão, é biologicamente inativo! Os autores afirmam com todas a letras que os guidelines de sociedades médicas respeitadas mundo afora quase sempre foram elaborados por pessoas com conflitos de interesse com a indústria alimentícia e no Brasil não foi diferente. Portanto pessoal, a soja é um alimento seguro, barato, saudável, muito mais palatável que as fórmulas extensamente hidrolisadas e deve ser a primeira opção em crianças com APLV mesmo aquelas abaixo de 6 meses de vida. Recomendo fortemente a todos a lerem este artigo na íntegra! WRF

Palavras-chave: Alergia à proteína do leite de vaca, Fórmula à base de soja, Lactente, Anafilaxia, Alergia alimentar

Elaborado pela Dra. Julia Donatoni

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