Autor: Andrew Bush.
FONTE: Pediatric Pulmonology March 2026.
OBJETIVO: Revisar como eventos adversos e exposições ambientais precoces — desde o período pré-concepcional até a infância — determinam desfechos de saúde na vida adulta, com foco em doenças respiratórias e cardiovasculares, além de avaliar os mecanismos de transmissão transgeracional desses riscos.
MÉTODOS: Trata-se de um artigo de revisão que analisa as evidências fundamentadas na hipótese das “Origens do Desenvolvimento na Saúde na Doença”, proposta inicialmente por David Barker. O estudo compila dados de coortes longitudinais que acompanham indivíduos por até seis décadas, investigando o impacto do tabagismo (ativo, passivo e transgeracional), poluição (interna e externa), infecções respiratórias precoces, nutrição, estresse materno e fatores genéticos/epigenéticos sobre a função pulmonar e o envelhecimento celular.
RESULTADOS: A revisão demonstra que a trajetória da função pulmonar (FEV1 e FVC) é estabelecida precocemente, com a maioria dos indivíduos mantendo seu nível funcional desde o início da fase escolar até a meia-idade. Foi evidenciado que o tabagismo dos avós e dos pais (antes mesmo da concepção) aumenta o risco de asma nos descendentes por vias epigenéticas. Durante a gestação, a exposição à nicotina altera a arquitetura pulmonar fetal, aumentando a deposição de colágeno e comprometendo a septação alveolar. O baixo peso ao nascer e a prematuridade foram fortemente associados à obstrução fixa das vias aéreas e à mortalidade prematura por DPOC e causas cardiovasculares na maturidade. Exposições adversas também resultam no encurtamento precoce dos telômeros, acelerando o envelhecimento biológico já no nascimento. Patologias tradicionalmente consideradas “doenças do adulto”, como DPOC, câncer de pulmão, fibrose pulmonar idiopática e asma ocupacional, revelaram ter suas raízes em danos ambientais sofridos na infância. O estudo destaca ainda a “síndrome do pulmão pequeno” (FVC reduzida), correlacionando-a diretamente com multimorbidade sistêmica e risco cardiovascular aumentado.
CONCLUSÃO: A prevenção eficaz das principais doenças respiratórias e cardiovasculares do adulto deve ser iniciada precocemente, idealmente antes da concepção e durante o pré-natal, dado que as raízes dessas patologias são estabelecidas bem antes da maturidade. A crença de que as crianças simplesmente “superam” as agressões respiratórias iniciais é refutada por trajetórias funcionais que mostram persistência de déficits ao longo da vida. É necessária uma ação política robusta para mitigar a pobreza infantil, reduzir a poluição ambiental e endurecer o controle sobre o tabagismo e o vaping, visando interromper o ciclo transgeracional de doenças crônicas.
COMENTÁRIO: Dr. Andrew Bush, autor desta revisão, é um dos pneumologistas pediátricos mais respeitados na atualidade. Os dados apresentados confirmam o que, há alguns anos, vem se discutindo sobre a origem das doenças pulmonares de adultos. Dados cada vez mais robustos mostram que asma, DPOC, câncer de pulmão, fibrose pulmonar, entre outros provavelmente iniciam-se antes mesmo da concepção da criança. A epigenética, que avalia a interação do indivíduo com o meio ambiente, pode alterar as características genéticas de uma criança, levando a doenças pulmonares nos adultos. Estas alterações gênicas sofridas na primeira infância podem ser transmitidas para futuras gerações aumentando a complexidade do problema, que chamados hoje de transmissão transgeracional. WRF

