As mãos do médico
as mãos do médico

Texto adaptado da coluna do Dr. Carlos Starling, publicada no jornal Estado de Minas em 22 de setembro de 2026.

O médico deve examinar uma pessoa que aparentemente está saudável, mesmo quando ela não apresenta sintomas? Essa pergunta, aparentemente simples, foi tema de um debate publicado no New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo.

Para discutir a questão, a publicação convidou dois especialistas com opiniões diferentes.

O primeiro defende a importância do exame físico, argumentando que o contato entre médico e paciente fortalece a confiança e pode revelar alterações que passariam despercebidas. Em poucos minutos, é possível identificar uma lesão suspeita na pele, um gânglio aumentado, alterações na respiração, sopros ou outras manifestações que mereçam investigação.

O segundo especialista apresenta uma perspectiva mais objetiva. Para ele, todo exame deve responder a uma dúvida clínica. Na ausência de sintomas ou suspeitas, examinar indiscriminadamente pode trazer poucos benefícios e até desencadear investigações desnecessárias. Afinal, estudos mostram que determinados check-ups de rotina não estão associados à redução da mortalidade.

São argumentos relevantes, que nos convidam a refletir sobre os limites da investigação médica e sobre algo que, por vezes, parece estar ficando em segundo plano: o valor do contato humano durante uma consulta.

Em uma medicina cada vez mais tecnológica, corremos o risco de solicitar exames complementares antes mesmo de ouvir e examinar cuidadosamente quem está à nossa frente.

Lembro-me do meu pai, que também era médico. Durante minha infância, quando chegava em casa, lavava as mãos com água e sabão e me examinava com atenção e tranquilidade. Não sei se aqueles momentos mudaram algum indicador de saúde, mas sei que transmitiam segurança. Minha mãe, certamente, dormia mais tranquila depois de ouvi-lo dizer que estava tudo bem.

Meu antigo professor de Clínica Médica, Dr. João Galizzi, costumava dizer: “A coisa mais difícil que existe é melhorar um paciente assintomático”.

E ele tinha razão.

Mas a experiência também me ensinou que, mesmo quando alguém aparentemente não apresenta nenhum problema, um exame físico cuidadoso pode revelar informações importantes. Uma alteração na ausculta pulmonar, uma mancha na pele ou uma amígdala aumentada podem oferecer pistas que ajudam o médico a compreender melhor a saúde daquele paciente.

Isso não significa defender procedimentos desnecessários ou ignorar as evidências científicas. A medicina evolui justamente porque questiona práticas antigas, incorpora novos conhecimentos e reconhece quando determinadas condutas deixam de fazer sentido.

Entretanto, a evolução da medicina não deveria significar o abandono daquilo que sempre esteve no centro do cuidado: a atenção ao paciente.

Penso, por exemplo, na mãe que leva seu filho saudável ao consultório. Muitas vezes, ela não procura apenas a confirmação de que não existe uma doença. Deseja que alguém observe a criança, examine sua garganta, escute seu coração e seus pulmões e, com a segurança de quem avaliou cuidadosamente, possa tranquilizá-la: seu filho está bem.

Há também uma história que um amigo médico me contou. Certa vez, alguém lhe pediu uma indicação de profissional. Sem ter um nome específico para recomendar, sugeriu que procurasse um médico pela lista do plano de saúde.

Algumas semanas depois, os dois se reencontraram. Ao perguntar sobre a consulta, ouviu uma resposta curiosa. O paciente havia escolhido um médico experiente, de aproximadamente 70 anos, que já apresentava certa dificuldade para ouvir. Ainda assim, saiu satisfeito e confiante de que melhoraria.

E, de fato, melhorou.

O que mais o impressionou, porém, não foi a idade ou a experiência daquele profissional, mas a atenção recebida. Entre tantas consultas, aquele havia sido o médico que verdadeiramente dedicou tempo para ouvir suas queixas.

Essa história nos lembra que o cuidado vai muito além de diagnósticos, prescrições e resultados laboratoriais.

A ciência é indispensável. A tecnologia amplia nossas possibilidades. Os exames complementares são fundamentais quando bem indicados. Mas nada disso substitui a sensibilidade de reconhecer que, diante do médico, existe uma pessoa com dúvidas, expectativas, inseguranças e medos.

Talvez escutar atentamente e examinar um paciente nem sempre modifique os indicadores de mortalidade. Mas pode aliviar a ansiedade, devolver a tranquilidade e transformar a maneira como alguém enfrenta uma preocupação com a própria saúde.

Porque, em muitos momentos, as mãos do médico não servem apenas para examinar. Elas também representam cuidado, acolhimento e confiança.

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